De acordo com os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de desemprego em Cabo Verde voltou a cair, refletindo uma recuperação gradual do mercado de trabalho nacional. No entanto, o representante do Fundo Monetário Internacional (FMI) no país, Rodrigo García-Verdú, alerta que alguns fatores estruturais – como o perfil dos emigrantes cabo-verdianos – podem afetar temporariamente a leitura dessa evolução positiva.
Durante a conferência “Mercado de Trabalho em Cabo Verde: Competências para uma Nova Economia”, García-Verdú destacou que cerca de 60% dos cabo-verdianos que emigraram nos últimos cinco anos estavam empregados antes de deixar o país, segundo dados do Censo 2021. Essa dinâmica, explica o economista, pode provocar um aumento inicial da taxa de desemprego, mesmo num contexto em que o número total de desempregados diminui.
“A taxa de desemprego é um rácio entre o número de desempregados e a soma dos desempregados com os empregados. Quando um trabalhador empregado sai do país, o denominador dessa conta diminui, e isso pode fazer o rácio aumentar”, explicou o representante do FMI.
Segundo García-Verdú, este efeito é mais evidente nas zonas urbanas, onde se concentra a maior parte da população economicamente ativa. Já nas áreas rurais, a maioria dos emigrantes encontrava-se desempregada ou fora da força de trabalho, o que faz com que o impacto na taxa global seja menos significativo.
O fenómeno, observou ainda o economista, verifica-se em ambos os géneros, embora seja mais acentuado entre os homens, refletindo a predominância masculina nas migrações laborais cabo-verdianas.
Apesar dessas nuances, os números divulgados pelo INE indicam uma tendência de descida do desemprego no país. A instituição sublinha que essa redução é resultado da retoma económica após o impacto da pandemia, do crescimento em setores como turismo e construção, e do reforço de políticas de inserção profissional.
Contudo, o representante do FMI alertou para a necessidade de cautela na análise das estatísticas, lembrando que o INE passou a adotar uma nova metodologia em 2022, alinhada às convenções internacionais da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
“Comparar séries antigas com as novas pode gerar interpretações incorretas sobre a evolução real do emprego e do desemprego em Cabo Verde”, frisou García-Verdú.
Em síntese, enquanto o INE confirma que o desemprego está a diminuir, os especialistas defendem que a leitura dos números deve ser contextualizada, considerando fatores como a emigração, as transformações demográficas e as mudanças metodológicas. Esses elementos ajudam a compreender com mais precisão o retrato atual do mercado de trabalho cabo-verdiano — que, embora apresente sinais de recuperação, ainda enfrenta desafios estruturais para garantir emprego estável e de qualidade a toda a população.